domingo, 28 de outubro de 2007

Poema em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

ter algo

SE VOCÊ, COMO EU, NÃO É NENHUMA Gisele Bündchen, não há motivo para se desesperar em frente ao espelho. Quem dera ser uma deusa, mas não sendo, há chance de sermos incluídas no time das interessantes. Junte nove lindas e uma mulher interessante e será ela quem vai se destacar entre as representantes do marasmo estético. Perfeição, você sabe, entedia.Mulher interessante é aquela que não nasceu com tudo no lugar, a não ser a cabeça - e, às vezes, nem isso, pois as malucas também têm um charme que vou te contar. A mulher interessante não é propriamente bonita, mas tem personalidade, tem postura, tem um enigma no fundo dos olhos, uma malícia que inquieta a todos quando sorri - e um nariz diferente. São também conhecidas como feias-bonitas.Eu poderia citar um batalhão de feias-bonitas que, aqui no Brasil, são públicas e notórias, mas vá que elas não considerem isso um elogio.

Mulheres com rostos difíceis de classificar, que não se enquadram em nenhum padrão.Esse género de mulher não figura nos anúncios da Lancôme e não possui um rosto desenhado com fita métrica: olhos, boca e nariz a uma distância equilibrada um dos outros. Nada disso, a feia-bonita é aquela que não causa uma excelente impressão à primeira vista. Ao contrário, causa estranhamento.As pessoas questionam-se. O que é que essa mulher tem? Ela tem algo. Pronome indefinido: algo.Ficar bonitinhas, muitas conseguem, mas ter algo é para poucas. Não dá para encomendar num consultório de cirurgia plástica. Não adianta musculação, dieta, hidratantes. Feias-bonitas têm a boca larga demais. Ou um leve estrabismo. Ou um nariz adunco. Ou seja, este algo que elas têm é algo errado. Mas que funciona escandalosamente bem.E há aquelas que não têm nada de errado, mas também nada de relevante. Um zero a zero completo, e ainda assim se destacam. Um exemplo? Aquela menina que actua no "Homem-Aranha", Kirsten Dunst. Jamais será uma Michelle Pfeiffer, mas a menina tem algo. Quem dera que esse algo fosse vendido em frascos nos freeshops da vida. Se o fato de ser uma feia-bonita é, digamos, uma óptima compensação, ser um feio-bonito é o prémio máximo. Eu, ao menos, prefiro-os disparadamente aos bonitos-bonitos. Não é que eu tolere um narigão num homem: ele tem que ter um! Nada de baby face. É obrigatório uma cicatriz, ou um queixo pronunciado, um olhar caído. Você está se lembrando de um monte de cafajestes, eu sei. Ou de um monte de italianos. É esse tipo mesmo, você pegou o espírito da coisa.Feias-bonitas e feios-bonitos tornam a vida mais generosa, democrática, divertida e interessante.

Não podemos ter tudo, mas algo se pode ter.!!

Martha Medeiros in Revista O Globo Publicado em 15 de Agosto de 2004

sábado, 13 de outubro de 2007

If

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires;
De sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores;
Se encontrando a Desgraça e o Triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a Vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!"

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre Reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade;
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo
E - o que mais - tu serás um homem, meu filho.


Rudyard Kipling
Tradução de Guilherme de Almeida

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Aprendendo com a idade

Aprendi que o meu pai pode dizer vários palavrões e eu não posso. (8 anos)
Aprendi que minha professora chama-me sempre quando eu não sei a resposta. (9 anos)
Aprendi que os meus melhores amigos são sempre os que me metem em confusões. (11 anos)
Aprendi que, se tenho problemas na escola, tenho ainda mais, em casa. (12 anos)
Aprendi que não devo descarregar as frustrações no meu irmão mais novo, porque o meu pai tem frustrações maiores e a mão mais pesada. (15 anos)
Aprendi que nunca devo elogiar a comida de minha mãe, quando estou a comer alguma coisa que minha mulher cozinhou. (25 anos)
Aprendi que num minuto posso fazer algo que me vai dar dores de cabeça o resto da vida. (29 anos)
Aprendi que quando minha mulher e eu temos, finalmente, uma noite sem as crianças, passam a maior parte do tempo a falar delas. (35 anos)
Aprendi que os casais que não têm filhos, sabem melhor como se deve educá-los. (37 anos)
Aprendi que é mais fácil fazer amigos do que nos livrarmos deles. (40 anos)
Aprendi que mulheres gostam de receber flores, especialmente sem nenhum motivo, e que não se deve esperar chegar a esta idade para reconhecer que FLORES para quem se AMA faz bem, de vez e sempre! (42 anos)
Aprendi que não cometo muitos erros quando tenho a boca fechada. (44 anos)
Aprendi que casar por dinheiro é a maneira mais difícil de conseguí-lo. (47 anos)
Aprendi que se pode fazer alguém feliz, simplesmente mandando-lhe um pequeno cartão. (48 anos)
Aprendi que crianças e avós são aliados naturais. (50 anos)
Aprendi que quando chego atrasado ao trabalho, o meu patrão chega cedo. (51 anos)
Aprendi que é bom aproveitar o sucesso, mas que não se deve acreditar muito nele. (57 anos)
Aprendi que não posso mudar o que passou, mas posso deixar o passado para trás. (63 anos)
Aprendi que a maioria das coisas com que me preocupo nunca acontecem. (64 anos)
Aprendi que esperar a reformar para então começar a viver, é esperar tempo demais. (67 anos)
Aprendi que nunca se deve ir para cama sem resolver uma briga. (71 anos)
Aprendi que quando as coisas vão mal, eu não tenho que ir com elas. (72 anos)
Aprendi que amei menos do que deveria. (88 anos)
Aprendi que tenho muito a aprender. (90 anos)

A VIDA É CURTA. APROVEITE-A!!!


Autor Desconhecido

sábado, 6 de outubro de 2007

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O anúncio de Bilac

O dono de um pequeno comércio, amigo do grande poeta Olavo Bilac, abordou-o certa vez na rua:

- Sr. Bilac, estou a precisar vender a minha propriedade, que o Senhor tão bem conhece. Poderia, por gentileza, redigir o anúncio para a venda no jornal?

Olavo Bilac apanhou o papel que o amigo lhe estendia e escreveu:

VENDE-SE ENCANTADORA PROPRIEDADE

"Vende-se encantadora propriedade, onde cantam os pássaros ao amanhecer no extenso arvoredo. Cortada por cristalinas e marejantes água de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda".

Meses depois, o poeta reencontrou o comerciante e perguntou-lhe se havia conseguido vender a propriedade.

- Nem pense mais nisso Sr. Bilac! Quando li o anúncio que o senhor escreveu é que percebi a maravilha que tinha nas mãos.

Às vezes não descobrimos as coisas boas que temos connosco e vamos longe atrás de Miragens e falsos tesouros. Valorize o que você tem. A pessoa que está a seu lado, os amigos que estão junto a você, o emprego que Deus lhe proporcionou, o conhecimento adquirido, a sua saúde, o sorriso...
Olavo Bilac