segunda-feira, 21 de abril de 2008

Você me entendeu ao não entender

Você não perguntou se eu podia, ou se devia.
Você não me diminuiu para se sentir mais forte.
Você não se escandalizou com a mentira; eu não completei a verdade.
Você não pensou no futuro, não pesou as consequências, não penou antes da hora.
Você não se protegeu do que desconhecia.
Não alertou que sofreria comigo, e que depois não sairia ilesa.
Você não me forçou a adivinhá-la.
Não apelou para o bom senso.
Você não me inventou, muito menos queimou o rascunho.
Você não me ameaçou com gentilezas.
Não me incriminou com seus temores, não explicou seus traumas.
Não se fez de vítima como se eu estivesse atacando.
Não, você me carregou nos ombros pela cintura. Os dois dedos dentro do meu cinto empurrando a dança.
Não me solicitou prova, testemunhas, sinais.
Não emprestou a Deus o que acontecia em segredo.
Você lembrou do sinal-da-cruz longe da igreja.
Não me julgou por antigos amores.
Não me condicionou a amar como estava acostumada.
Não esperou que eu pronunciasse o que vinha escrito em carta.
Você me olhava com os cabelos.
Você não pediu fiança, recompensa, para se entregar.
Você veio com a roupa do corpo, com o corpo ainda sem culpa.
Você me fechou em suas pernas e deixou a porta aberta do quarto.
Você me exilou no desejo para me repatriar aos poucos.
Você esqueceu as janelas chiando na cozinha.
Você foi incapaz de me constranger quando desisti de responder.
Você não me incitou a casar contigo, não me incitou a namorar.
Você não isolou minhas frases, não alegou que era uma fase.
Você me perdoou como se não existisse.
Você me fez existir para que perdurasse.
Você não me reclamou distante, não cobrou que mandasse notícias.
Você desaparecia quando desaparecia e voltava quando voltava.
Você me afirmava quando me confundia.
Você segurava a nudez para que subisse.
Você não me comparou a ninguém, muito menos aquilo que já fui.
Você não me subornou com a infância ou com o medo da morte.
Você não explorou meus segredos para usá-los.
Você não quis que falasse para preencher as falhas.
Você arredondou os defeitos pela pressa de cuidá-los.
Você foi generosa com os meus ouvidos, confiando mais no vento do que na palavra.
Você me permitiu.
Você me entendeu ao não entender.

Você não teve nada a ver comigo - finalmente eu não me repetia.

Fabrício Carpinejar

domingo, 20 de abril de 2008

Adorei!!!!!!!!!!!



«(...)As almas gémeas quase nunca se encontram, mas, quando se encontram, abraçam-se. Naqueles momentos em que alguém diz uma coisa, que nunca ouvimos, mas reconhecemos não sei de onde. E em que mergulhamos sem querer, como se estivéssemos a visitar uma verdade que desconfiávamos existir, de onde desconfiamos ter vindo, mas aonde não tínhamos conseguído voltar.

O coração sente-se. A alma pressente-se. O coração anda aos saltos dentro do peito, a soluçar como um doido, tão óbvio que chega a chatear.

Mas a alma é uma rocha branca onde estão riscados os sinais indeléveis da nossa existência.

(...) Gémea não é igual. É parecida. Não é um espelho. É uma janela. Não é um reflexo. É uma refracção.

(...) O desejo de encontrar uma alma gémea não é o desejo de reafirmarmos a unicidade da nossa existência através de outro que é igual a nós. É precisamente o contrário. É poder descansar dessa demanda.

No fundo, todos nós duvidamos que tenhamos uma alma.

Senão não falávamos tanto dela.

Uma alma gémea é a prova que não estamos sozinhos.

(...) O estado normal de duas almas gémeas é o silêncio.

Não é o "não ser preciso falar" - é outra forma de falar, que consiste numa alma descansar na outra. Não é a paz dos amantes nem a cumplicidade muda dos amigos. Não precisa de amor nem de amizade para se entender.

As almas acharam-se. Não têm passado. Não se esforçaram. Estão.

É essa a maior paz do mundo. Como é que um ninho pode ser ninho doutro ninho? Duas almas gémeas podem ser. Como é que se reconhece a alma gémea? No abraço.

(...) Quando duas almas gémeas se abraçam, sente-se o alívio imenso de não ter de viver. Não há necessidade, nem desejo, nem pensamento. A sensação é de sermos uma alma no ar que reencontrou a sua casa, que voltou finalmente ao seu lugar, como se o outro corpo fosse o nosso que perdêramos desde a nascença.

(...) As almas gémeas revelam-se uma à outra. Não são iguais. Mas revelam-se de forma igual. Como se tivesse surgido, de repente, uma língua que só os dois conseguíssem falar.

(...) Toda a angústia do eu se dissipa. É-se inteira e naturalmente aceite. Sem perguntas. Sem condições. Sem promessas. E mergulha-se no outro como se já não fosse preciso existirmos.»

Miguel Esteves Cardoso

segunda-feira, 24 de março de 2008

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Só por ser Natal e eu estar a trabalhar...


sábado, 8 de dezembro de 2007

Vou embora

Estou em GREVE!
Este blog vai ficar parado enquanto o Joca não voltar.
É que ninguém aguenta tantas saudades.......
Até lá, façam o favor de ser felizes.....



segunda-feira, 26 de novembro de 2007


O QUE É PRECISO TER EM MENTE (sem mentir) QUANDO UMA MULHER EXPERIMENTA ROUPAS ANTES DE SAIR


Fabrício Carpinejar

O homem nasceu para o halterofilismo. Levantar a moral da mulher.

De manhã, ela no banheiro, prova uma roupa e pede opinião ao marido.
- Linda!
(Ele pensa que ela finalmente está pronta)

Com o impacto, ela vai trocar de roupa e propõe um novo arranjo.
- Linda!!
(Ele pensa que ela finalmente está pronta)

Decide trocar tudo, do jeans e blusa põe um vestido.
- Linda!!!
(Ele não pensa mais)

Foram três combinações e cada vez que o marido inflacionava os pontos de exclamação, ela duvidava e alterava o conjunto. Parte ao trabalho emburrada, com a certeza de que o marido não a ama mais.

Casal sai atrasado de casa ao tentar a democracia.

Mulher não confia na sugestão do marido, confia na observação de outra mulher.

É como se o marido fosse obrigado a dizer aquilo. Mas se ele não declarasse, o que aconteceria?

De manhã, ela no banheiro, prova uma roupa e pede a opinião ao marido.
- Olha acho que a calça está um pouco abarrotada na cintura.
- Como abarrotada?
- Parece um saco.
- Tá me chamando de cimento?
- Não, pediu para que a ajudasse, pode colocar algo que deixa a bundinha mais arrepiada.
- Tá falando que minha bunda caiu?
- Não....

Decide trocar tudo, do jeans e blusa põe um vestido. Parte ao trabalho emburrada, com a certeza de que o marido não a ama mais.

Casal sai atrasado de casa ao tentar o golpe militar.

Qualquer comentário surgindo de uma boca feminina, não agrediria.

De manhã, ela no banheiro, prova uma roupa e pede a opinião a uma amiga.
- Olha acho que a calça está um pouco abarrotada na cintura.
- Também acho, lembra um saco.
- Pois é, pode tentar algo para valorizar as curvas.
- Boa idéia, nunca gostei mesmo desse jeans. Usei pouquíssimo.

Homem não é espelho de mulher, nem dele mesmo. A mulher tem independência e domínio no gosto, ela o deixa assistir, apenas isso. Entenda, é texto somente para leitura.

Quando confia no acerto, não desistirá da roupa, ainda que seja um parangolé. Quando não gosta de um detalhe ou uma peça, nada a demoverá. Nada. Nem o Tratado Lógico-filosófico, de Wittgenstein.

É uma coerência secreta. O homem não está ali para concordar ou discordar, apesar do pedido ter sido esse. O homem está ali para amá-la. Do jeito que vier.

Sempre que cobrar atraso ou pressa, ela derrubará o guarda-roupa, montará um brechó em cima da cama e encherá uma caixa de campanha do agasalho com o que não presta naquele amanhecer. Fica irritada com a pressão. Mas quando ele deixa o tempo livre, sem nenhuma irritação e aviso de despejo, botará a primeira roupa que cogitar e sairá determinada da melhor escolha.

O homem nasceu para o halterofilismo. Utiliza apenas os halteres errados. Deve levantar a imoral da mulher.

De manhã, ela no banheiro, prova uma roupa e pede opinião ao marido.
- Tira só um pouquinho essa blusa para enxergar melhor a inclinação de seus ombros. Assim, está linda.
- Gostou?
- Tira só um pouquinho essa calça, para andar em suas pernas. Assim, está linda.

Casal sai atrasado - e feliz - de casa porque sempre foi monárquico.

sábado, 24 de novembro de 2007

Melancolia

É preciso esconjurar, da forma que nos for possível, este diabo de vida que não sei porque é que nos foi dada e que se torna tão facilmente amarga se não opusermos ao tédio e aos aborrecimentos uma vontade de ferro. É preciso, numa palavra, agitar este corpo e este espírito que se delapidam um ao outro na estagnação e numa indolência que se confunde com um torpor. É preciso passar, necessariamente, do descanso ao trabalho - e reciprocamente: só assim estes parecerão, ao mesmo tempo, agradáveis e salutares. Um desgraçado que trabalhe sem cessar, sob o peso de tarefas inadiáveis, deve ser, sem dúvida, extremamente infeliz, mas um indivíduo que não faça mais do que divertir-se não encontrará nas suas distracções nem prazer nem tranquilidade; sente que luta contra o tédio e que este o prende pelos cabelos - como se fosse um fantasma que se colocasse sempre por detrás de cada distracção e espreitasse por cima do nosso ombro.
Não julgue, cara amiga, que eu só porque trabalho regularmente estou isento das investidas deste terrível inimigo; penso que, quando se tem uma certa disposição de espírito, é preciso termos uma imensa energia de forma a não nos deixarmos absorver e conseguir escapar, graças à nossa força de vontade, à melancolia em que caímos continuamente. O prazer que sinto, neste momento, em dialogar consigo acerca deste sentimento é mais uma prova de como eu me procuro agarrar, avidamente, sempre que tenho forças para isso, a todas as oportunidades para ocupar o espírito (ainda que seja referindo-me a este tédio, que procuro combater).
(...)Para me consolar, termino com este último axioma: que é por ter espírito que me aborreço.

Eugène Delacroix, in 'Diário'

sábado, 17 de novembro de 2007

Para o meu "2º marido"...

O SEGREDO DO CASAMENTO

Meus amigos separados não cansam de me perguntar como eu consegui ficar casado trinta anos com a mesma mulher.
As mulheres, sempre mais maldosas que os homens, não perguntam a minha esposa como ela consegue ficar casada com o mesmo homem, mas como ela consegue ficar casada comigo.
Os jovens é que fazem as perguntas certas, ou seja, querem conhecer o segredo para manter um casamento por tanto tempo.
Ninguém ensina isso nas escolas, pelo contrário. Não sou um especialista do ramo, como todos sabem, mas, dito isso, minha resposta é mais ou menos a que segue. Hoje em dia o divórcio é inevitável, não dá para escapar. Ninguém aguenta conviver com a mesma pessoa por uma eternidade. Eu, na realidade, já estou em meu terceiro casamento - a única diferença é que me casei três vezes com a mesma mulher. Minha esposa, se não me engano, está em seu quinto, porque ela pensou em pegar as malas mais vezes do que eu. O segredo do casamento não é a harmonia eterna. Depois dos inevitáveis arranca-rabos, a solução é ponderar, se acalmar e partir de novo com a mesma mulher. O segredo, no fundo, é renovar o casamento, e não procurar um casamento novo.
Isso exige alguns cuidados e preocupações que são esquecidos no dia-a-dia do casal. De tempos em tempos, é preciso renovar a relação. De tempos em tempos, é preciso voltar a namorar, voltar a cortejar, voltar a se vender, seduzir e ser seduzido.
Há quanto tempo vocês não saem para dançar? Há quanto tempo você não tenta conquistá-la ou conquistá-lo como se seu par fosse um pretendente em potencial? Há quanto tempo não fazem uma lua-de-mel, sem os filhos eternamente brigando para ter sua irrestrita atenção?
Sem falar dos inúmeros quilos que se acrescentam a você depois do casamento. Mulher e marido que se separam perdem 10 quilos num único mês, por que vocês não podem conseguir o mesmo? Faça de conta que você está de caso novo. Se fosse um casamento novo, você certamente passaria a frequentar lugares desconhecidos, mudaria de casa ou apartamento, trocaria eu guarda-roupa, os discos, o corte de cabelo e a maquilhagem. Mas tudo isso pode ser feito sem que você se separe de seu cônjuge. Vamos ser honestos: ninguém aguenta a mesma mulher ou marido por trinta anos com a mesma roupa, mesmo batom, com os mesmos amigos, com as mesmas piadas. Muitas vezes não é sua esposa que está ficando chata e mofada, são os amigos dela (e talvez ou seus), são seus próprios móveis com a mesma desbotada decoração. Se você se divorciasse, certamente trocaria tudo, que é justamente um dos prazeres da separação. Quem se separa se encanta com a nova vida, a nova casa, um novo bairro um novo círculo de amigos. Não é preciso um divórcio litigioso para ter tudo isso. Basta mudar de lugares e interesses e não se deixar acomodar. Isso obviamente custa caro, e muitas uniões se desfacelam porque o casal se recusa a pagar esses pequenos custos necessários para renovar um casamento. Mas, se você se separar, sua nova esposa vai querer novos filhos, novos móveis, novas roupas, e você ainda terá a pensão dos filhos da união anterior. Não existe essa tal "estabilidade do casamento", nem ela deveria ser almejada. O mundo muda, e você também, seu marido, sua esposa, seu bairro e seus amigos. A melhor estratégia para salvar um casamento não é manter uma "relação estável", mas saber mudar junto. Todo cônjuge precisa evoluir, estudar, aprimorar-se, interessar-se por coisas que jamais teria pensado fazer no início do casamento. Você faz isso constantemente no trabalho, por que não fazer na própria família? É o que seus filhos fazem desde que vieram ao mundo.
Portanto, descubra o novo homem ou a nova mulher que vive a seu lado, em vez de sair por aí tentando descobrir um novo e interessante par. Tenho certeza de que seus filhos os respeitarão pela decisão de se manterem juntos e aprenderão a importante lição de como crescer e evoluir unidos apesar das desavenças. Brigas e arranca-rabos sempre ocorrerão; por isso, de vez em quando é necessário casar-se de novo, mas tente fazê-lo sempre com o mesmo par , se ainda der tempo, faça "valer a pena."
Stephen Kanitz

(Obrigada Olívia, pelo texto)

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Amanhã o sol vai brilhar




I can see clearly now, the rain is gone,
I can see all obstacles in my way
Gone are the dark clouds that had me blind
It’s gonna be a bright (bright), bright (bright)
Sun-Shiny day.

I think I can make it now, the pain is gone
All of the bad feelings have disappeared
Here is the rainbow I’ve been prayin' for
It’s gonna be a bright (bright), bright (bright)
Sun-Shiny day.

Look all around, there’s nothin' but blue skies
Look straight ahead, nothin' but blue skies

I can see clearly now, the rain is gone,
I can see all obstacles in my way
Gone are the dark clouds that had me blind
It’s gonna be a bright (bright), bright (bright)
Sun-Shiny day.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007


"Durante a nossa vida:
Conhecemos pessoas que vêm e que ficam,
Outras que, vêm e passam.
Existem aquelas que, vêm, ficam e depois de algum tempo se vão.
Mas existem aquelas que vêm e se vão com uma enorme vontade de ficar..."

Charlie Chaplin

domingo, 4 de novembro de 2007

Desististe?


Às vezes é preciso aprender a perder, a ouvir e não responder, a falar sem nada dizer, a esconder o que mais queremos mostrar, dar sem receber, sem cobrar, sem reclamar. Às vezes, é preciso partir antes do tempo, dizer aquilo que mais se teme dizer, arrumar a casa e a cabeça, limpar a alma. Às vezes, mais vale desistir do que insistir, esquecer do que querer. No ar ficará para sempre a dúvida se fizemos bem, mas pelo menos temos a paz de ter feito aquilo que devia ser feito, somos outra vez donos da nossa vida. Às vezes, é preciso abrir a janela e jogar tudo borda fora, queimar cartas e fotografias, esquecer a voz e o cheiro, as mãos e a cor da pele, apagar a memória sem medo de a perder para sempre, esquecer tudo, cada momento, cada minuto, cada passo e cada palavra, cada promessa e cada desilusão, atirar com tudo para dentro de uma gaveta e deitar fora a chave. Porque quem parte é quem sabe para onde vai, quem escolhe o seu caminho, mesmo que não haja caminho, porque o caminho se faz a andar. O sol, o vento o céu e o cheiro do mar são os nossos guias, a única companhia, a certeza que fizemos bem e que não podia ser de outra maneira. Quem fica, fica a ver, a pensar, a meditar, a lembrar. Até se conformar e um dia então, esquecer.
As Crónicas da Margarida, Margarida Rebelo Pinto
(texto com supressões)

domingo, 28 de outubro de 2007

Poema em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

ter algo

SE VOCÊ, COMO EU, NÃO É NENHUMA Gisele Bündchen, não há motivo para se desesperar em frente ao espelho. Quem dera ser uma deusa, mas não sendo, há chance de sermos incluídas no time das interessantes. Junte nove lindas e uma mulher interessante e será ela quem vai se destacar entre as representantes do marasmo estético. Perfeição, você sabe, entedia.Mulher interessante é aquela que não nasceu com tudo no lugar, a não ser a cabeça - e, às vezes, nem isso, pois as malucas também têm um charme que vou te contar. A mulher interessante não é propriamente bonita, mas tem personalidade, tem postura, tem um enigma no fundo dos olhos, uma malícia que inquieta a todos quando sorri - e um nariz diferente. São também conhecidas como feias-bonitas.Eu poderia citar um batalhão de feias-bonitas que, aqui no Brasil, são públicas e notórias, mas vá que elas não considerem isso um elogio.

Mulheres com rostos difíceis de classificar, que não se enquadram em nenhum padrão.Esse género de mulher não figura nos anúncios da Lancôme e não possui um rosto desenhado com fita métrica: olhos, boca e nariz a uma distância equilibrada um dos outros. Nada disso, a feia-bonita é aquela que não causa uma excelente impressão à primeira vista. Ao contrário, causa estranhamento.As pessoas questionam-se. O que é que essa mulher tem? Ela tem algo. Pronome indefinido: algo.Ficar bonitinhas, muitas conseguem, mas ter algo é para poucas. Não dá para encomendar num consultório de cirurgia plástica. Não adianta musculação, dieta, hidratantes. Feias-bonitas têm a boca larga demais. Ou um leve estrabismo. Ou um nariz adunco. Ou seja, este algo que elas têm é algo errado. Mas que funciona escandalosamente bem.E há aquelas que não têm nada de errado, mas também nada de relevante. Um zero a zero completo, e ainda assim se destacam. Um exemplo? Aquela menina que actua no "Homem-Aranha", Kirsten Dunst. Jamais será uma Michelle Pfeiffer, mas a menina tem algo. Quem dera que esse algo fosse vendido em frascos nos freeshops da vida. Se o fato de ser uma feia-bonita é, digamos, uma óptima compensação, ser um feio-bonito é o prémio máximo. Eu, ao menos, prefiro-os disparadamente aos bonitos-bonitos. Não é que eu tolere um narigão num homem: ele tem que ter um! Nada de baby face. É obrigatório uma cicatriz, ou um queixo pronunciado, um olhar caído. Você está se lembrando de um monte de cafajestes, eu sei. Ou de um monte de italianos. É esse tipo mesmo, você pegou o espírito da coisa.Feias-bonitas e feios-bonitos tornam a vida mais generosa, democrática, divertida e interessante.

Não podemos ter tudo, mas algo se pode ter.!!

Martha Medeiros in Revista O Globo Publicado em 15 de Agosto de 2004

sábado, 13 de outubro de 2007

If

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires;
De sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores;
Se encontrando a Desgraça e o Triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a Vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!"

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre Reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade;
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo
E - o que mais - tu serás um homem, meu filho.


Rudyard Kipling
Tradução de Guilherme de Almeida

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Aprendendo com a idade

Aprendi que o meu pai pode dizer vários palavrões e eu não posso. (8 anos)
Aprendi que minha professora chama-me sempre quando eu não sei a resposta. (9 anos)
Aprendi que os meus melhores amigos são sempre os que me metem em confusões. (11 anos)
Aprendi que, se tenho problemas na escola, tenho ainda mais, em casa. (12 anos)
Aprendi que não devo descarregar as frustrações no meu irmão mais novo, porque o meu pai tem frustrações maiores e a mão mais pesada. (15 anos)
Aprendi que nunca devo elogiar a comida de minha mãe, quando estou a comer alguma coisa que minha mulher cozinhou. (25 anos)
Aprendi que num minuto posso fazer algo que me vai dar dores de cabeça o resto da vida. (29 anos)
Aprendi que quando minha mulher e eu temos, finalmente, uma noite sem as crianças, passam a maior parte do tempo a falar delas. (35 anos)
Aprendi que os casais que não têm filhos, sabem melhor como se deve educá-los. (37 anos)
Aprendi que é mais fácil fazer amigos do que nos livrarmos deles. (40 anos)
Aprendi que mulheres gostam de receber flores, especialmente sem nenhum motivo, e que não se deve esperar chegar a esta idade para reconhecer que FLORES para quem se AMA faz bem, de vez e sempre! (42 anos)
Aprendi que não cometo muitos erros quando tenho a boca fechada. (44 anos)
Aprendi que casar por dinheiro é a maneira mais difícil de conseguí-lo. (47 anos)
Aprendi que se pode fazer alguém feliz, simplesmente mandando-lhe um pequeno cartão. (48 anos)
Aprendi que crianças e avós são aliados naturais. (50 anos)
Aprendi que quando chego atrasado ao trabalho, o meu patrão chega cedo. (51 anos)
Aprendi que é bom aproveitar o sucesso, mas que não se deve acreditar muito nele. (57 anos)
Aprendi que não posso mudar o que passou, mas posso deixar o passado para trás. (63 anos)
Aprendi que a maioria das coisas com que me preocupo nunca acontecem. (64 anos)
Aprendi que esperar a reformar para então começar a viver, é esperar tempo demais. (67 anos)
Aprendi que nunca se deve ir para cama sem resolver uma briga. (71 anos)
Aprendi que quando as coisas vão mal, eu não tenho que ir com elas. (72 anos)
Aprendi que amei menos do que deveria. (88 anos)
Aprendi que tenho muito a aprender. (90 anos)

A VIDA É CURTA. APROVEITE-A!!!


Autor Desconhecido

sábado, 6 de outubro de 2007

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O anúncio de Bilac

O dono de um pequeno comércio, amigo do grande poeta Olavo Bilac, abordou-o certa vez na rua:

- Sr. Bilac, estou a precisar vender a minha propriedade, que o Senhor tão bem conhece. Poderia, por gentileza, redigir o anúncio para a venda no jornal?

Olavo Bilac apanhou o papel que o amigo lhe estendia e escreveu:

VENDE-SE ENCANTADORA PROPRIEDADE

"Vende-se encantadora propriedade, onde cantam os pássaros ao amanhecer no extenso arvoredo. Cortada por cristalinas e marejantes água de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda".

Meses depois, o poeta reencontrou o comerciante e perguntou-lhe se havia conseguido vender a propriedade.

- Nem pense mais nisso Sr. Bilac! Quando li o anúncio que o senhor escreveu é que percebi a maravilha que tinha nas mãos.

Às vezes não descobrimos as coisas boas que temos connosco e vamos longe atrás de Miragens e falsos tesouros. Valorize o que você tem. A pessoa que está a seu lado, os amigos que estão junto a você, o emprego que Deus lhe proporcionou, o conhecimento adquirido, a sua saúde, o sorriso...
Olavo Bilac

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Dança de Sombras