Quando eu for rico como Joe Berardo e tiver uma colecção de arte ainda mais moderna e contemporânea do que a dele, hei-de lembrar-me que o dinheiro pode comprar aplausos para os meus disparates, mas jamais será capaz de ocultar as minhas imperfeições. Hei-de lembrar-me de não agir como dono do mundo, porque, querendo parecer o que não sou, serei exactamente aquilo que pareço uma ilusão.
Quando eu for excêntrico como Joe Berardo e quiser expor os meus valiosos tarecos artísticos num museu, hei-de lembrar-me que não fui eu que os fiz; e que, por isso, é inútil e ridículo emprestar-lhes o meu nome, oferecer-lhes a minha sombra, sobrepor-lhes o meu ego. Hei-de lembrar-me de os libertar do meu sentimento de posse, do meu apego, para que, destituídos de mim, exprimam o que realmente são.
Quando eu for poder como Joe Berardo, hei-de lembrar-me de designar as pessoas pelos seus nomes. Hei-de lembrar-me de não dizer "O homem não está a ser bem aproveitado, talvez até nem precise de trabalhar", como se esse homem sem nome - que, por acaso, se chama António Mega Ferreira e, por acaso, é presidente do CCB e, por acaso, é um criador e não um coleccionador - fosse apenas mais um objecto do meu acervo.
Quando eu for extraordinário, sublime, fantástico, belo e sedutor como Joe Berardo, hei-de lembrar-me de permitir que os outros sejam tão extraordinários, sublimes, fantásticos, belos e sedutores como eu. Por exemplo, hei-de lembrar-me de reconhecer o talento de Rui Costa e o direito que ele teve de cumprir o melhor da sua carreira fora do Benfica. E hei-de lembrar-me - apesar do tipo fabuloso que eu serei quando for extraordinário, sublime, fantástico, belo e sedutor como Joe Berardo - de pensar duas vezes antes de emitir juízos públicos sobre outras pessoas. Não porque isso pesasse realmente no curso próspero da minha vida. Apenas para evitar que eu, um homem tão rico, excêntrico, poderoso, extraordinário, sublime, fantástico, belo e sedutor como Joe Berardo, tivesse que andar sempre a pedir desculpas pelos meus dislates.
Quando eu for excêntrico como Joe Berardo e quiser expor os meus valiosos tarecos artísticos num museu, hei-de lembrar-me que não fui eu que os fiz; e que, por isso, é inútil e ridículo emprestar-lhes o meu nome, oferecer-lhes a minha sombra, sobrepor-lhes o meu ego. Hei-de lembrar-me de os libertar do meu sentimento de posse, do meu apego, para que, destituídos de mim, exprimam o que realmente são.
Quando eu for poder como Joe Berardo, hei-de lembrar-me de designar as pessoas pelos seus nomes. Hei-de lembrar-me de não dizer "O homem não está a ser bem aproveitado, talvez até nem precise de trabalhar", como se esse homem sem nome - que, por acaso, se chama António Mega Ferreira e, por acaso, é presidente do CCB e, por acaso, é um criador e não um coleccionador - fosse apenas mais um objecto do meu acervo.
Quando eu for extraordinário, sublime, fantástico, belo e sedutor como Joe Berardo, hei-de lembrar-me de permitir que os outros sejam tão extraordinários, sublimes, fantásticos, belos e sedutores como eu. Por exemplo, hei-de lembrar-me de reconhecer o talento de Rui Costa e o direito que ele teve de cumprir o melhor da sua carreira fora do Benfica. E hei-de lembrar-me - apesar do tipo fabuloso que eu serei quando for extraordinário, sublime, fantástico, belo e sedutor como Joe Berardo - de pensar duas vezes antes de emitir juízos públicos sobre outras pessoas. Não porque isso pesasse realmente no curso próspero da minha vida. Apenas para evitar que eu, um homem tão rico, excêntrico, poderoso, extraordinário, sublime, fantástico, belo e sedutor como Joe Berardo, tivesse que andar sempre a pedir desculpas pelos meus dislates.
Artigo de opinião do Fernando Marques, intitulado "Hey Joe...", e publicado no Jornal de Notícias do dia 01/07/2007.
1 comentário:
se ao menos esse "tal" de joe tivesse a capacidade de se "ver" ao espelho..... enfim.... ainda bem q ha poucos....
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